Minha caixinha de ouro.

Era uma vez uma menina. Guardei-a em uma caixinha de ouro, a caixinha de ouro mais linda que havia no mundo. Procurei, na beleza da embalagem, esconder um pouco da culpa que eu sentia em sufocar aquela linda menininha que me encarava sem entender. Eu disse palavras bonitas, prometi apenas um “até logo”, jurei que jamais diria “adeus”. Ela sorriu pra mim. Eu chorava e ela limpava minhas lágrimas, dizendo que estava tudo bem. Consolava-me com a ideia de que eu já voltaria e poderíamos estar juntas de novo, que tudo, no final, ficaria bem.
Ela não era capaz de compreender. E eu não era capaz de encará-la nem mais por um segundo. Deixei com ela um caderno grosso e caneta que cuja tinta nunca acabava, disse para que escrevesse tudo que pensasse ou sentisse. Prometi-lhe que leria cada letra que estivesse marcada naquele caderno e pedi-lhe que colocasse nele tudo de si. Eu já voltaria, ia ser muito rápido. Ela sorriu pra mim. Afagou meus cabelos com a serenidade dos adultos e segurou minhas mãos grandes com suas mãos pequenas, encorajando-me a ir. E, enquanto eu fechava a tampa da caixinha de ouro, tudo que eu conseguia pensar era: como eu posso fazer algo tão cruel com essa criatura ingênua que acena para mim?
Ela era a criaturinha mais encantadora que eu já havia conhecido. Com seus cabelos castanhos soltos ao vento e seu vestido florido, essa menina tinha o sorriso mais lindo que o mundo já viu. Ela era o ser mais puro que existia, carregava uma doçura na voz e uma certeza no olhar que o Universo ainda estava pra compreender. O mais incrível nessa doce criança era sua capacidade de guardar todo o sentimento que havia no mundo dentro do seu pequeno coraçãozinho. E havia algo de encantador naquela singularidade de pessoa que era capaz de te convencer que, mesmo sem saber de nada, ela sabia de tudo. E mesmo assim, eu fechei a tampa.
Estou com medo. Sentada na cama, com a caixa dourada no colo, tenho medo de abrí-la. E se a menininha não lembrar mais de mim? Temo que sejamos duas estranhas, incapazes de nos reconhecer ou sequer nos gostar novamente. Ou pior, ela pode ter crescido e mudado, e então, aquela criança linda e única que um dia eu conheci teria sido eternamente destruída por mim mesma, sua maior admiradora. Talvez seja mais lindo o sonho de que ela estará lá, para sempre esperando que eu volte e a abrace, prometendo nunca mais deixá-la só novamente, do que a realidade do desencanto. Apavoro-me ao pensar que, quando abrir essa tampa, posso encontrar um caderno aberto na primeira página, com os dizeres calejados: sinto muito, cansei de esperar. E se eu simplesmente não tiver conseguido esperar por mim?


Marcela Quintela
15 de novembro de 2010


Comentários

  1. Escuta, menina. Sem medo da luz forte que vai aparecer, abre os olhos e vive de novo. Vá de encontro com sentimentos escritos e remendados que ficaram tanto tempo perdidos, mas que são seus. Medo nunca foi o vencedor da tua liberdade.

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  2. Depois desta frase arrebatadora de Renata, vou me limitar a parafraseá-la: "Vá de encontro com sentimentos escritos e remendados que ficaram tanto tempo perdidos, mas que são seus. Medo nunca foi o vencedor da tua liberdade."
    Em relação a qualidade, dispensável falar algo.

    Yke Leon,
    www.revolutear.com

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