Felicidade sôfrega.

Há muito tempo a habilidade de transformar sentimentos em palavras me escapou e tudo o que me resta agora é uma sede medrosa de tentar. Contudo, diante de tudo com o que o mundo tem me presenteado, é impossível calar-me por extenso:

Só eu sei a dor e a delícia de ser quem sou. Apenas me pertence o conhecimento do meu sentir intenso e inigualável, capaz de sintetizar os maiores rios de lágrimas que esse mundo já viu. Ninguém mais é capaz de compreender por completo a emoção pura que doma todo o meu corpo diante das pequenices da vida. Só eu, e nenhuma outra pessoa, possuo o poder do entendimento sobre os rompantes de alegria ou tristeza que me invadem sem pedir licença. Sou a única pessoa que sabe o poder de uma imagem, um gesto, uma palavra ou um som sobre mim.
  As lágrimas são para mim sentimento palpável. É exclusividade dos intensos ter para si sua válvula de escape, seja ela o que tiver que ser. Eu, que sou tão irreverente para tudo nesse mundo, acabo comum para o que me serve como escapatória. A minha intensidade se faz líquida e termina por escorrer dos meus olhos, incontrolavelmente e sem aviso prévio. Não é meu o domínio sobre quando os sentimentos adquirirão qualidades táteis e nunca sei prever a umidade do meu rosto, mesmo que já saiba entendê-la. Nunca fui mais dona do meu sentir do que fui sua dominada.
Intensidade não é característica inerente, é jeito de viver. Porém, ser intenso também não é escolha, mas fardo e presente do destino. A vida ensina, mesmo que não pareça assim a todo instante, que a delícia do ser que sente demais é tão por demais única e prazerosa que compensa todo o sofrer intrínseco. O sentimento arrebatador que corre nas veias, acelera o coração, ruboriza a face e se convente em água que molha o rosto é o verdadeiro sintetizador do substantivo mais incompreensível do dicionário: a felicidade. E é por esse sentir, e só por ele, que vivo a vida e enxergo o mundo com uma diferença que brilha em uma linda felicidade sôfrega.

Marcela Quintela
29 de maio de 2011

Comentários

  1. Tem uma certa hora
    que o sol ilumina mais o dia.
    Como eu queria que meus rompantes
    fossem sempre de alegria.

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  2. A vida passa pela gente mesmo que a gente resolva não passar mais por ela.
    Um dia você escreveu isso: "A vida ensina, mesmo que não pareça assim a todo instante, que a delícia do ser que sente demais é tão por demais única e prazerosa que compensa todo o sofrer intrínseco. O sentimento arrebatador que corre nas veias, acelera o coração, ruboriza a face e se convente em água que molha o rosto é o verdadeiro sintetizador do substantivo mais incompreensível do dicionário: a felicidade. E é por esse sentir, e só por ele, que vivo a vida e enxergo o mundo com uma diferença que brilha em uma linda felicidade sôfrega."
    Não deixe que a vida ordinária passe por você e te faça esquecer do que te faz ser quem é. Assim, única, como poucos.

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