Desculpe-me
Você não me
pediu para me apaixonar, mas eu me apaixonei. Deixei-me levar pelo encantamento
de seus olhos, a leveza do seu sorriso, a força do seu abraço, a doçura da sua
voz e a graça de todas aquelas suas manias, que eu já conheço de traz pra
frente. O Sentimento cresceu sem pedir licença a mim e muito menos a você, que
jamais pôde imaginá-lo. Cada encontro, cada conversa, cada confidência
compartilhada era um alicerce que, sorrateiro, fincava-se no meu jardim e dava
sustentação a essa construção de sentimentos. Uma certeza desgovernada tomou
conta de mim e, a cada vislumbre do seu rosto, ela crescia e se alimentava de
você. Peço que entenda, pois eu não queria me apaixonar, foi natural e aos
poucos, como semente que cresce e vira flor. Desculpe-me por gostar tanto de
você.
Você não me
pediu para me iludir, mas eu me iludi. Construí castelos para nós, com um rio
de carinho que o cercava, com portões de confiança que o protegiam e todo
mobiliado de paixão. Escrevi seu nome nos meus sonhos, mesmo os em que eu
estive acordada, e pintei o arco-íris da cor dos seus olhos, pois nenhuma outra
cor era tão bela para mim. Criei inúmeras histórias para nós, dançamos juntos,
saímos juntos, dormimos juntos, declaramo-nos juntos, mas nunca – nunca mesmo – brigamos. Levei-o
comigo a todos os lugares em que fui, interpretei seu papel na minha mente e,
secretamente, interagi com você. Peço que entenda, pois eu não queria me iludir,
foi natural e invisível, como água que evapora e vira chuva. Desculpe-me por sonhar
tanto com você.
Você não me
pediu para sofrer, mas eu sofri. Em cada “talvez” que saiu da sua boca, percebi
nada mais do que o medo de dizer o “não”, e me magoei sozinha por enxergar a sinceridade
por trás das suas mentiras carinhosas. Percebi, quando já era tarde demais, que
era mais bela a possibilidade do sim do que a certeza do não, e me arrependi da
urgência da verdade. Em silêncio, derrubei nosso castelo, mas continuei a viver
em seus escombros. Desconstruí nossas histórias e senti a dor da sua perda
inúmeras vezes, em cada vez em que tive que riscar seu nome dos meus sonhos.
Esvaziei minha cama do pensamento em você e, pela primeira vez em algum tempo,
dormi inteiramente sozinha. Peço que entenda, pois eu não queria sofrer, foi
natural e cruel, como raio que corta o céu e destrói a terra. Desculpe-me por chorar
tanto por você.
Marcela Quintela
12 de janeiro de 2012
Esse é lindo.
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