Convite para a felicidade

          A vida não se controla ou estabelece. Por mais que nos esforcemos, qualquer tentativa de dominação apenas nos levaria à loucura. Tudo o que fazemos, das grandiosas até as mais ínfimas atitudes, são pioneiras de acontecimentos futuros distintos. Se a cada esquina que virássemos ou a cada vitrine que contemplássemos, cada um de nós fosse parar e refletir sobre a repercussão longínqua daqueles míseros segundos de ação, viveríamos em um sinistro mundo de loucos. E é por isso que simplesmente vivemos na doce ilusão de sermos controladores das páginas do nosso próprio livro. Esquecendo que somos apenas personagens de uma história infinitamente maior e mais complexa do que cabe a nós dirigir.
          Do amanhã nada se diz. O amanhã é o momento de possibilidades infinitas; é o corredor escuro por detrás da porta; é o passo a ser dado sem certeza de chão. O amanhã carrega a magia do desconhecido e o medo do incontrolável, é a constante tentativa de certeza – sem sucesso. É como o vôo de uma borboleta que se solta no vento ou uma gota de chuva que despenca sem rumo. É a folha em branco, à espera de tudo e coisa nenhuma. 
           Mesmo assim, as pessoas se esquecem de que jamais deve-se adiar o que pode ser feito nesse instante, pois talvez daqui a pouco seja simplesmente tarde demais. Perdida em suas monótonas rotinas e suas patéticas convicções, a humanidade caminha em massa pelos dias vagos e sem sentido. Adia-se tudo sempre, pelo costume do conformismo e deixam-se perder no espaço nostalgias de tempos que nunca existiram. Se os jovens erram pela sede do agora, os velhos erram pelo comodismo do depois. Ser eternamente jovem! Pecar sempre pelo exagero e arrepender-me somente pelo que fiz demais. Quero embolar-me em palavras, engasgar-me em sorrisos, afogar-me em lágrimas e perder-me em inúmeras brincadeiras deliciosas! Quero ser a criança mais feliz do meu centenário e poder zombar de mim mesma, do quão tola que fui.
           Deixem-me ser exagerada! Sofrer por amores impossíveis, chorar por motivos incabíveis, rir da mais sem graça das piadas. Soltem-me! Para que eu possa correr sem rumo, abraçar sem pudores, beijar sem escrúpulos e cantar sem canção. Quero ser feliz só hoje, somente neste momento, e que este possa nunca ter fim! Que os cotovelos falem por nós e os rios derramem nossas lágrimas, que as botas se batam sem levar ninguém. Juntemos todos os macacos no mesmo galho e olhemos os dentes de todos os cavalos, contrariemos os ditados, pois ‘tudo está bem, quando termina bem’!
           Gargalhemos todos bem alto, sem medo de ser julgados pelos críticos que nos cercam; choremos inconsoláveis, sem medo de espantarmos os que não nos compreendem; falemos de tudo e de todos, a todo o momento, simplesmente porque podemos; brinquemos com a mais velha das bonecas e o mais primitivo dos carrinhos que possamos encontrar! Vivamos intensamente, somente o presente, sem mais nada esperar. Digamos a todos tudo o que quisermos, contemos segredos e profundas declarações. Sejamos plenamente felizes, apenas porque hoje pode ser a nossa última chance de tentar.







Marcela  Quintela
Fevereiro de 2008

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