Trens, coisas e culpas.
As borboletas voaram ligeiras. Há um tanto de tempo, habitavam na barriga – ali mesmo, bem em cima do umbigo – um coletivo enorme de borboletas coloridas. Avisada ou desavisadamente, elas se esvoaçavam todas juntas, causando um rebuliço sem controle. O vôo das borboletas indomáveis fazia o sangue circular depressa e o rosto moreno era todo rubor. O agitar das asas trazia um misto de cócegas e arrepios, repuxando a pele do rosto em um misto de sorriso e contenção. O desgoverno do rumo da revoada causava o gesto inconsciente da mão que se cerra na tentativa de segurar o inseguro. Hoje, por sua culpa, as borboletas adormecidas voaram ligeiras como outrora.
A alma despiu o corpo pelos olhos. Quando se olha no olho do outro, há um tanto de intimidade e entreguismo. O encontro das retinas diz um nada cheio de tudo que se tem pra dizer no mundo. Expor a janela da alma é arriscar a visita gostosa inesperada e o ladrão perverso disfarçado. Quem acha que olho é coisa pequena é porque nunca viu que olho tem quase vida própria: só percebe o que tem que perceber, escapa quando não devia e cala ou fala quando bem entende. E, como se não bastasse a humanização de um mero catalizador de sentido visual, olho é tão gente que até namora outro olho, de um jeito que só entende que já deixou o olho se enamorar. Hoje, por sua culpa, a alma despiu o corpo pelos olhos como poucas vezes.
O arrepio acendeu o desejo. O toque da pele é tão forte quanto o toque das palavras e, talvez, só mais fraco que o toque da imaginação. A mão que esfrega o rosto, percorre a nuca e aperta a pele quente traz um arrepio que desce pela coluna e se segura nas pernas que cruzam com força para segurar a sensação. A declaração falada do desejo, o sussurro no pé do ouvido, o convite olhado nos olhos trazem um arrepio que sobe pela coluna e se espalha na mente que confunde o que se quer e o que se deve. A imaginação que arrepende a decisão, preenche a cama desacompanhada e planeja todo um tanto de possibilidades futuras traz um arrepio que percorrer o corpo todo, de cima a baixo e de baixo a cima, sem vontade de se definir. Hoje, por sua culpa, o arrepio acendeu o desejo como nunca.
Marcela Quintela
13 de abril de 2012
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