Casa de mim


            Desaprendi a me ser. Logo eu, que era especialista em mim! E o desaprendizado, em continuação da sua antítese ao aprender, aconteceu bruscamente. Não foi provocado ou reconhecido, apenas foi. Foi, e um dia já o era, apercebi-me e vi que já o estava sendo. Sem avisos, sem ultimatos, sem consideração de se explicar. O desaprender foi tão repentino quanto a morte. E morte foi, ao matar o meu saber me ser.
Imagino que o desconhecimento tenha sido gradual, mas apenas despercebido. Que tenha sido processo; recesso; retrocesso, por fim. Retrocedi em matéria de mim, e me deixei de ser. Ou – melhor dizendo – me fiz ser, e me deixei. Abandonei-me no auto-temor. Amedrontei-me com a ideia de ser sem limites. Afinal, o mundo não é capaz de me suportar em minha plenitude. Nem o mundo, e muito menos eu.
Como a sala principal de uma casa suntuosa, eu era um cômodo com várias portas. Cada vão de entrada-saída era abertura para um outro espaço de mim. Cada ambiente com suas características, sua decoração, suas utilidades; mas todos partes de um mesmo todo. Na sala habitava o mais puro de minha personalidade, o que era mais comum comigo, o que era mais afim a mim, o que era eu. O eu que só eu sei ser. O eu que me é, quando nada mais importa ser.
Fechei todas as portas. Mas fechei-as todas por fora. Com medo do tanto que me vazava para todos os outros cômodos, tranquei as portas, uma a uma, para conter o tanto que era. Com a minha presença latente em toda aquela superlotada sala principal, passei a buscar ambientes mais espaçosos, menos abarrotados de tanta coisa. Mal percebi que “coisa” era caráter de mim. Enfim, com todas as portas cerradas por fora, passei a viver em tudo aquilo que não era sala. Em tudo aqui que, ainda que fosse casa, era casa sem sala, era pessoa sem essência, era eu sem mim.
As vozes aumentaram seus volumes. Como um aparelho de som que se conserta e volta ao tom original, o mundo ficou mais audível. Só então percebi que a ascensão do volume era fruto da acústica. Acústica especial que só existem em um lugar de toda a casa de mim: a sala principal. Sobressaltei de susto ao ver todas as portas abertas, escancaradas. O eco perfeito das três vozes da mesa, que mais eram chaves-mestras acidentais da minha residência invadiu e preencheu a casa vazia. Fui me vazando e me inundando com a intensidade de água presa que se liberta. E era tanta água contida, que verteu em forma de lágrima pela janela dos meus olhos. E foi lindo ver a força da minha liberdade.



30 de setembro de 2012
Marcela Quintela

Comentários

  1. Pena já não estares a escrever mais.
    Achei-te qdo estava a preparar o meu relatório da missão ao Rio de Janeiro.
    Devo contacta-la em breve para o Ibmec.
    Cumprimentos e um 2014 perfeito!
    DNR

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