Essa semana eu conheci Maria Ribeiro ou Escancarando a porta.
Essa semana eu
conheci Maria Ribeiro. E não, não foi pessoalmente. Foi melhor. Essa semana eu
li Maria Ribeiro. Em tem um tanto de qualquer coisa quando a gente lê alguém,
que é de um jeito que só quem lê sabe. E, talvez você se espante com o que eu
vou dizer agora, mas pouca gente sabe ler. Não tô falando daquela burocracia que se aprende na escola, aquilo lá é
outra coisa. É uma formalidade que a gente usa pra verificar bula de remédio,
manual de instrução (raramente) e rótulo de xampu (ô palavra feia de
abrasileirar!). Eu tô falando de ler.
Entende?
Ler de verdade
não tem nada a ver com os olhos. É coisa de alma, coração e pele. Não se
aprende, mas se nasce aprendido. E é
bom. E é ruim. E é tão ruim que dói de bom. Não é escolha, não tem fórmula, é
uma marca que o universo coloca na gente que nem ferro em brasa no gado. E tem
vezes que arde que nem ferro em brasa no gado. Mas só que tem a marca reconhece
um outro igual. Tá ali: no olhar. Nas palavras. Palavra também é meio olhar. Mas só
quem lê palavra do mesmo jeito lê olhar sabe.
E quando a
gente cruza com olhar ou palavra de gente marcada pelo universo é uma doideira
que só. Dá vontade de rir, de chorar. De chorar de rir. De rir de chorar. E,
quando tá perto, a conversa não faz
sentido pra ninguém de fora, é uma outra língua. É uma língua toda própria. E
ela carrega todos os livros que a gente já leu, todos os textos que já
escreveu, todos as dores que já sentiu. Ela carrega uma parte nossa que é quase
enferrujada de tão antiga e tão mal usada, e tem gente de fora que acha até que
é papo de velho. E talvez seja. Quem é marcado já nasce meio velho, meio cheio
de outras vidas.
Ler um livro
de alguém que é feito a gente é ruim demais. Primeiro, porque a gente fica
desolado de não ser único no mundo. Porque tem disso também, quem vem com essa
tal marca sempre se acha único, sozinho, abandonado. Mas também quase especial
(ou amaldiçoado). E aí o primeiro sentimento é um tanto de decepção. Aí depois
bate uma euforia, uma identificação. Um quase amor cheio angústia por esse
outro alguém. Uma vontade de pegar o primeiro táxi, avião, máquina do tempo e
ir até aquela pessoa e falar: posso te ler pessoalmente? Mas, geralmente, não pode.
Dizem por aí que isso é perseguir uma pessoa. E perseguir é feio, né? É difícil explicar que não é perseguição se a
pessoa é um pedaço da gente. Moral da história? Mais decepção. E frustração.
Mas a gente sobrevive toda vez.
Quando a gente
sabe ler e lê alguém feito Maria Ribeiro chega a dar uma raiva. Porque ela é um
tanto de tanta coisa que nem ela sabe que é. Ou sabe. Eu acho que sabe. Mas ela
diz que não é. E dá raiva. Ela é bicho solto, cheio de verdades. Também cheia
de inseguranças que carrega com uma segurança que só, mas diz que não. E não é
mentira. É que só quem conhece as próprias angústias, medos e loucuras tem esse
jeito de carregar com orgulho aquilo que a gente mais tem vergonha. E conhecer
tudo isso tem a ver com saber ler, porque ler se aplica pra si mesmo também. E
é aí que arde. Dói. Sangra em lágrimas. Mas é tão lindo!
Essa semana eu
conheci Maria Ribeiro. Seu jeito displicente de escrever, que também é cheio de
cuidado. E – em cada palavra, cada ponto, cada vírgula, cada jeito de dizer que
era exatamente do jeito que eu diria – eu acordei de um sono profundo. Tinha
tanto tempo que eu não sabia mais como escrever que nem sabia se ainda tinha
alguma coisa pra dizer. Já fui prosa, já fui poesia, já foi simetria e assimetria.
E fui mudando, e me perdi. E foi nessa semana que eu me encontrei. Um jeito
novo de me fazer dizer que eu sempre usei na cabeça, mas nunca passei pro papel. Um jeito assim, displicente e
cheio de cuidado, feito Maria Ribeiro. E, como uma chave que abre uma porta emperrada,
a prosa dessa mulher marcada e maravilhosa me destrancou de mim. E eu não
consegui pensar em outro jeito de agradecer do que escancarando a porta com
esse texto. A chance mesmo é que ela nunca saiba, mas não importa muito porque
quem escreve sabe que palavra é bicho solto e nem pretende controlar as
consequências. Eu só queria dizer que
essa semana eu conheci Maria Ribeiro. Eu só queria dizer que essa semana eu me
reconheci.
Marcela Quintela
29/09/2015
Fico ainda mais orgulhoso quando leio seus textos. Adoro sua capacidade de expressar seus sentimentos e opiniões, em palavras. Te amo!
ResponderExcluirQuem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida. E que belo estranho dia pra se ter alegria!
ResponderExcluirMe teleportei para 2011 agora. E adorei!
ExcluirSurpresa feliz do dia te encontrar por aqui.