Querida vovó

Hoje eu reli sua carta. E tinha tanto de você nela que me trouxe uma avalanche de vida vivida juntas. E o engraçado é que, em meio ao turbilhão de sentimentos, eu me peguei pensando que sempre quis ter a letra igual a sua. Sua letra era assim como você: carinhosa e aconchegante, tal qual colo de vó. Não sei se por superestima ou desejo, mas eu até achei que minha letra chegou perto da sua com o tempo. E ‘tá bom pra mim. Sua letra é mesmo única, eu jamais quereria plagia-la, fico feliz que - assim como eu - ela é um tanto sua descendente, um tanto sua cria, um tanto parte de você em mim. Obrigada por isso.

Faz pouco mais de 15 anos que você escreveu essa carta, mas pareceu, por uns instantes, que o tempo nunca passou. Eu sorri quando você disse que eu e minha prima somos quase irmãs - porque somos mesmo. Eu me encantei quando você - cheia de orgulho - me contou que minha outra prima ia casar e - o motivo do orgulho - ia se arrumar na nossa casa. Eu chorei quando me confessou que seu pedido de Natal pra Jesus era passar esses dias sem dor, mesmo você me contando que ele te concedeu o desejo. Mas confesso que o que me pegou de jeito mesmo foi você falar que a cortina caiu e você e vovô não conseguiram botar no lugar. Sabe o que é, vó? É que eu daria tudo que eu tenho e mais um pouco pra não te deixar um dia sem cortina na sala.

Te reconheci em cada vírgula que acompanhava sua letrinha linda de caderno de caligrafia. Aqueles mesmo cadernos que você me pediu tanto pra fazer e eu nunca terminei (desculpa por isso). Em poucas palavras, você conseguiu fazer caber tanto de si! Tinha seu amor pelos animais, sua crença em Jesus, seu carinho pelos netos e pela família. E sabe o que mais eu reparei? Você disse pra todos os netos que queria ser nossa amiga. E eu queria te dizer que você conseguiu isso, vózinha. Você foi uma grande amiga! Lembra todos os episódios de E.R. que vimos juntas? As infindáveis palavras cruzadas e as tardes ouvindo a discografia toda de Roberto Carlos que você tinha colecionado. Tiveram também aquelas aulas de tapeçaria e as vezes que eu tentei aprender a tricotar - mas acho que tenho que pedir desculpas por elas também: faltou um tanto de talento e outro tanto de dedicação. Mas acho que você não brigaria comigo por isso. Eu também queria ser sua amiga e era por isso que inventava tanta desculpa pra passarmos tempo juntas. O objetivo nunca foi aprender, e eu desconfio que você sabia disso.

Ah, minha vó Nininha, minha amiga, minha heroína! Eu poderia te escrever mil cartas e o assunto nunca faltaria. Tem tanta coisa pra te contar. Ou será que você já sabe? De qualquer forma, mesmo eu preferindo te ter comigo pra sempre, eu viveria esses últimos 11 anos sem você um milhão de vezes se eles fossem o preço dos 15 anos que passamos juntas. Você vale cada segundo, cada sorriso, cada brigadeirinho de festa que me deixou ajudar, passando no granulado. Obrigada por fazer parte de mim. Eu te amo pra sempre, minha pequena grande mulher.


Marcela Quintela
14/05/2018

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Farol

Sobre saltar no amor

Citando