O amor nos tempos do corona

     Eu não sei bem o que diria Gabriel García Márquez, mas a verdade é que estamos todos vivendo dias estranhos. Não é a nossa primeira pandemia, mas eu arriscaria dizer que entrou para a lista das mais assustadoras que já tivemos. Ou, ao menos para a minha jovem geração, a com mais impacto nas nossas vidas. Temos uma certa fama de antissociais com os nossos narizes sempre grudados nas telas dos celulares e adoramos aqueles memes que dizem que já estamos velhos demais para eventos sociais, mas a verdade é que nenhuma maratona de “Netflix and Chill” nos preparou para o dia em que seríamos realmente impedidos de sair de casa e socializarmos.

     Somos seres sociais, é inegável. Até os mais introspectivos de nós ainda apreciam aquele seleto grupo de amigos nos programas escolhidos a dedo. Mas a verdade é que nem é preciso entrar tanto por aí, porque o buraco é mais embaixo, não é mesmo? Não estamos só falando daquela cervejinha do fim de semana ou daquele jantar pra pôr a conversa em dia. Estamos falando mesmo de liberdade. Talvez a coisa mais assustadora dessa pandemia seja a troca da nossa liberdade pelo medo. Medo de um inimigo invisível e imprevisível, medo por nós e pelos nossos, medo da doença, medo da solidão. Alguém inteligente alguma vez disse “não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe” e eu me prendo um tanto a isso. Não sei vocês, mas mal começou e eu estou contando os dias para o fim, mesmo sem saber quando.

     No meio de tanto caos e histeria, vale apontar para um fenómeno que não passa despercebido. O amor e o carinho tomam novas formas, diante das limitações. As pausas para cafés no trabalho e os drinks do fim do dia ganham espaço no virtual, o “desce que eu estou chegando” é substituído pelo “abre a porta que eu te mandei um jantar surpresa” e o pensamento em um amigo mais rapidamente vira uma mensagem ou ligação nos dias de hoje. Ontem mesmo uma amiga me ligou só porque eu estava silenciosa nos grupos do whatsapp. Fiquei a pensar que talvez, há algumas semanas, ela não tivesse percebido tanto ou só achasse que eu estava ocupada com alguma trivialidade. A verdade é que estamos mais sensíveis, mais empáticos, mais atentos àqueles que amamos e com mais consciência da importância de estarmos presentes, de estarmos juntos como der para ser.
   
     Longe de mim querer romantizar uma pandemia, logo eu que já estou com os olhos cansados de tanto revirarem-se diante da enormidade de baboseiras que tenho lido por aí. Desculpem-me os românticos e os teóricos do apocalipse, mas eu não estou aqui para enaltecer o caos generalizado. Agora, eu tenho uma teoria de vida bem simples e que me guia desde que eu me entendo por gente: mesmo das maiores adversidades, é possível tirar algo de bom. Esse algo de bom muitas vezes é um aprendizado, nem que seja de algo pra nunca mais se repetir. E se eu tivesse que escolher hoje um “algo de bom” pra se levar desta tragédia, seria a releitura do amor. Esse amor que é perseverante, atencioso, sensível. Um amor em forma de “como você está hoje?” ou “que tal tomarmos um café virtual?”, um amor um tanto restrito em expressão, mas ilimitado em tamanho e autenticidade. No sufoco dos dias confinados, cada dose de amor que eu recebo é um brisa de ar puro. Obrigada, amigos e família, por cada sopro. Amo vocês também.



Marcela Quintela 
21 de março de 2020

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