Londres Feroz

Fiz de mim esfinge. Logo eu, soberana dos meus sentimentos. Criei tantos quadros para esconder os cofres dos reais pensamentos que a senha dos segredos ficou perdida nos dedos sujos de tinta. Era madrugada em Londres quando olhei para minhas mãos manchadas e li uns números borrados de cores primas. Mas eles não faziam sentido. Perguntei a mim mesma todas as perguntas de segurança. Não soube responder nenhuma. Esquecimento, confusão ou fuga? Mais uma pergunta sem resposta.

Escavei sentimentos. Ou tentei. Aprofundei autoquestionamentos como se fizesse uma expedição pelo fundo do mar dos meus medos. E, mesmo assim, lá no fundo era tudo escuro. Não vi peixes, não vi sereias, não vi respostas. Ou será que sou eu minha própria sereia, me confundindo com cantos ilusórios para cair nas armadilhas da minha insegurança? Dentro das pequenas mentiras conscientes e inconscientes que contamos para enlevezar (licença poética) o peso do nosso sentir, criei minha própria cortina de fumaça.

É o não-saber de mim mesma que me mata. O genuíno e abismal não-saber que extermina toda e qualquer chance de controle. A incerteza é mesmo uma besta incontrolável. E eu sempre fui boa em domar minhas próprias feras. Mas talvez o descontrole ocasional seja mesmo ossos do ofício de ser ferocidade em forma de gente. Não é meu primeiro caso de fugas bestiais, e não há de ser o meu último. Pena que eles nunca ficam mais agradáveis. Mais previsíveis, talvez. Mas não uma previsibilidade total, apenas uma certeza branda de que toda fuga tem sua captura. E uma aceitação irrestrita de que o ser capturado nunca será o mesmo que fugiu.

E eu nem quero ser a mesma. Que as ruas dessa cidade cinza — que soube ser tão azul pra mim — me transformem para sempre. Que entre os flocos de neve e os raios de sol dos últimos meses, nasçam novas feras. Lindas, fortes, indomáveis. Que a dança das fugas e capturas seja uma grande valsa onde, no fim, todos sejam livres, mas domesticados. Há qualquer coisa de bonito em tudo aquilo que é indomável.

Sigo sem saber. Salpiquei palavras nessa tela, escorri sentimentos pelo rosto em tantos cantos dessa cidade, fiz autópsia de mim no silêncio das noites. E, ainda sim, sigo indiagnosticada. E por hoje é só, pessoal. É só o que eu tenho pra mim: o controle de aceitar o descontrole, a certeza sobre as incertezas da vida, a determinação sobre a casualidade do destino. Só sei que quase nada sei. Não sei o que sinto, o que quero, pra onde vou. Mas vou. Eu e minhas feras. Eu e meus sentimentos selvagens. Eu e meu jeito feroz de viver. O tempo urge, a vida ruge e eu sei viver como poucos.


Marcela Quintela

16 de abril de 2023

 Londres

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