Palavra-passarinho

    Eu sinto um ciúme qualquer das palavras que não são minhas. Ainda agora, no ponteiro dos minutos, uma amiga enviou um texto que a fez chorar. E, na grandiosidade da minha pequenice, nasceu uma flor de ciúmes dentro de mim. (Digo ‘nasceu’ como se fosse um evento novo ou inédito, mas, na verdade, é como um botão de flor que nasce num velho jardim.) Li aquelas palavras como quem procura uma razão pra tamanha traição. Por que ela, e não eu? Vi beleza nelas com um misto conhecido de arrogância e humildade que só quem se compara é capaz de sentir. Teci um elogio como quem abre uma gaveta cheia de sentimentos bagunçados e escolhe a única coisa que podia mostrar. É que eu não tenho ciúmes das palavras, tenho ciúmes do poder delas.

    Há muito tempo, no ponteiro das décadas, eu comecei minha cura e minha sina de rabiscar palavras no papel. E lembro até hoje, com a clareza das memórias da alma, do dia em que as minhas palavras deixaram de ser só minhas. Eu tinha onze anos e escrevi um poema nascido das palavras molhadas de lágrimas de um professor. Sem bem saber o que eu fazia, ou o porquê, entreguei pra ele aquelas linhas tortas como quem devolve um objeto qualquer que caiu do bolso do seu dono. O abraço apertado dele me transformou pra sempre. Em algum lugar daquele abraço, eu entendi que as minhas palavras podiam ser muito mais do que só minhas. Eu senti a ganância do poder de tocar os outros e de fazer as minhas letras morarem nos sentimentos de outras pessoas.

    Eu sei que palavra é o passarinho dos sentimentos e que precisa voar pra fazer sentido. E na minha gaveta de sentimentos também tem um tanto de gratidão por todos os outros criadores desses canários de letras que soltam sentimento por aí. Pelos que vieram antes de mim e que fizeram de mim pássaro e criadora, e pelos que coexistem comigo na arte das letras voadoras. (Cabe mesmo muita coisa na minha gaveta.) Talvez esse texto seja meu ato simbólico de podar a flor de ciúmes e entregar pra esse passarinho recém-nascido levar embora de mim. Voa em paz, passarinho, você foi feito pro mundo e vai saber onde pousar.


Marcela Quintela

02 de setembro de 2023

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Farol

Sobre saltar no amor

Citando