Combatente Coração
Meu coração é forte, mas dói demais. Já tem muitos anos que eu descobri que dor não é sinônimo de fraqueza. Entendi que coração fraco é aquele que não é capaz de suportar a dor. O meu suporta, mas como dói. Existe algo de dilacerante no sentir em excesso, no rasgar do limite das emoções, alargadas pela intensidade de ser. E eu nunca soube sentir de menos. Tem também qualquer coisa de bonito na capacidade de aprofundar cada canto de cada emoção, no nadar num oceano de sensações, pensamentos e sonhos. Mas o mesmo calor que aquece todos os nossos sentidos e ilumina a alma também pode queimar a pele.
Uma versão minha do passado escreveu “eu sou mais forte que você, porque eu sinto tudo na intensidade que deve ser”. Essa versão minha já sabia que o coração frágil é aquele que mal suporta uma batida regular, e jamais sobreviveria à taquicardia de uma grande paixão. Meu coração é taquicárdico — ele bate eufórico ao ritmo de cada sentimento. E não há remédio que cure esse mal. Eu aprendi a ser assim, cronicamente sentenciada a uma vida de sentimentos em excesso.
Às vezes imagino como deve ser a vida de um coração pequeno. A calmaria dos batimentos controlados e do fluxo equilibrado das emoções passando nas veias. Sem sobressaltos, sem descompassos, sem intensidades — sempre aquele mesmo velho e conhecido ritmo. Seria escolha ou sentença? Seria mesmo esse pequeno coração incapaz de pulsar no ritmo dos sentimentos imensuráveis? Ou seria o medo o guardião feroz que impede a entrada de tudo aquilo que parece grande demais pra delicadeza desse pequeno sintetizador de vida?
Ah, se o mundo soubesse das dores que cabem dentro de mim. Se vissem as incontáveis cicatrizes e os grosseiros remendos vincados no miocárdio desse coração grande demais pra bater silencioso dentro do peito. Marcado eternamente pelas guerras de emoções travadas inúmeras vezes ao longo de uma vida toda de sentir em exagero. Meu coração é veterano, mas nunca fica na reserva por tempo demais — e nunca, mas nunca mesmo, desiste de lutar.
Eu sou grata pelo meu forte combatente. Admiro cada batalha travada com a devoção de quem sabe que no amor e na guerra vale tudo. Aprendi a amar e respeitar cada cicatriz conquistada através dos escudos da autenticidade de só saber ser quem se é. Entendi, com a experiência, a importância de chorar as batalhas perdidas e a paciência de esperar as cicatrizações do pós-guerra. Tudo sempre cicatriza — e cada cicatriz é uma história, um aprendizado, uma vida vivida por inteiro. Hoje perdi mais uma luta. Lavei os cortes com lágrimas doces e costurei cada ferida de tristeza com carinho. Descansa, coração guerreiro, que amanhã é um novo dia de luta, e a verdadeira vitória é nunca desistir de sentir.
01 de dezembro de 2023
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