Farfalhar de felicidade

Hoje eu ouvi o farfalhar das árvores. Perdoem-me os que acharem isso a mais vulgar das vulgaridades, mas, para alguém como eu, isso é um feito e tanto. Carrego de nascença uma perda auditiva moderada e há um tanto de sons por aí que nunca entraram no meu repertório. Mas hoje, nessa tarde despretensiosa de um domingo qualquer, eu ouvi, com o ineditismo especial que só as coisas óbvias sabem ter, o farfalhar das árvores do jardim.

E foi assim que descobri a música da natureza. Não é de hoje que eu sei que as árvores dançam, mas só hoje eu descobri qual é a música que agita as folhas e faz rodopiar até o mais tímido galho. O mais curioso de tudo é que ainda me levou um tempo pra saber ouvir. Num primeiro momento, eu não soube diferenciar barulho de farfalho, e tudo pra mim era ruído. Mas o vento foi gentil e fez o favor de esperar um momento breve. E depois, como num espetáculo perfeito sem ensaio, recomeçou a dança rodopiante e, com ela, a música esverdeada tomou conta de todo o espaço de som.

Talvez a felicidade seja um farfalhar de árvores. Talvez também seja preciso saber ouvir pra diferenciar felicidade de barulho. Talvez ela, assim como o farfalhar, tantas vezes esteja sempre ali a soprar, e nós é que não temos os ouvidos atentos pra ouvir a sua música. Talvez, até, pra algumas pessoas — assim como eu hoje — seja preciso um tanto de ajuda, um tanto de atenção e um tanto de delicadeza pra conseguir, finalmente, escutar o som que sempre esteve ali. 

Assim sendo, desejo sinceramente que eu nunca mais me esqueça, nem da música das árvores, nem da música da felicidade. Que eu nunca mais me perca nos ruídos das rotinas ou feche os ouvidos do coração. Que eu tenha a sabedoria de me relembrar, todos os dias, que a felicidade é um farfalhar de árvores, e que é preciso saber ouvir pra poder dançar. Vem dançar comigo?


Marcela Quintela

23 de junho de 2024

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