Meu mundo.
Eu sou muito meu mundo. Meus pensamentos, sentimentos e sonhos. Já chamei meu quarto de mundo, mas estava enganada. Meu quarto é aquém de mundo, é refúgio, talvez. Meu mundo vai comigo onde estou, não porque faça parte de mim, mas porque eu faço parte dele. E nele ninguém entra. Ou quase ninguém. Às vezes, no meu mundo, entram filmes, seriados, livros e imagens do cotidiano. Pessoas? Quase nunca. Tenho medo. As pessoas são sujas e, com seus pés cheios da graxa negra do julgamento, vão sujar todo meu mundo arco-íris. Vão trazer a poeira da incompreensão e vão me custar uma faxina dolorosa pelo impecável universo que habito. Lá fora tudo pode acontecer, não ligo. Pouco me importa quem habita além da minha esfera ou o que essas pessoas cismam em fazer, eu estou sempre aqui no meu mundinho. Não necessariamente presa, mas talvez refugiada.
Meu mundo não me decepciona, não me magoa, não me faz chorar. É sempre colorido com cores gritantes e nunca páram de tocar músicas que me agradam. Meu mundo tem uma biblioteca enorme, repleta de histórias para se ler. Histórias minhas, histórias dos outros, histórias da vida, histórias até de mentirinha. Meu mundo tem cenários lindos para se contemplar, cheios de vida e tão mágicos que as horas voam de diversão. Meu mundo tem uma piscina de bichinhos de pelúcia, todos lindos e gostosos, onde eu me afogo em brincadeiras. Meu mundo tem animais livres correndo pelos campos, onde tigrinhos-filhote brincam de brigar pela grama e beija-flores se perdem nos campos floridos. Meu mundo tem um arco-íris gigante que nunca sai do céu e nuvens fofas pra gente pular de uma a uma. Meu mundo tem árvore de algodão-doce, pedra de chocolate, flor de tutti-frutti e um rio de água potável fresquinha. Meu mundo tem flor que nunca morre, animal filhote pra sempre e o sol gostoso só vai embora quando a gente quer brincar de tomar banho de chuva.
Meu mundo tem, também, uma zona proibida. O lugar onde o arco-íris não chega, a grama fica ressecada e os animais tem medo de entrar. A cor, receosa, passa longe e tudo lá é preto e branco. Dentro dela corre apenas um rio, feito de todas as lágrimas que já derramei. Lá é onde eu guardo tudo que não combina com o Meu Mundo, é o meu depósito de coisas tristes. Mas eu não tenho medo. Com o passar dos anos, aprendi que visitá-la exige muita coragem, mas é necessário, também. Porém, confesso, toda vez que saio de lá de dentro, eu corro rápido pela grama, sentindo o sol bater no meu rosto, até cansar. Chego na pontinha do arco-íris e me reabasteço das cores vibrantes que me fazem sorrir. Pra completar, rolo na grama com os tigrinhos brincalhões e um beija-flor vem me trazer uma flor de morango pra alegrar os meus pensamentos. E, como seu não bastasse, termino sentada na grama, na beirada da piscina de bichinhos de pelúcia, admirando todo esse mundo que me pertence, comendo pedras de chocolate e bebendo água cristalina.
Meu mundo foi construído, não em 7 dias, mas em 18 anos e está sempre em construção. Foi feito pra mim e só pra mim, e foi presente só meu. Talvez agora as pessoas entendam o que eu faço quando estou olhando pro nada ou trancada no meu quarto enquanto tudo está acontecendo em volta. São nessas horas que me dedico a esse universo lindo que me pertence e ao qual eu pertenço, e isso eu só consigo fazer sozinha. Se você quiser muito, mas muito mesmo, e me provar que seus pés estão limpos e a poeira ficou pra trás, eu deixo você me visitar. Mas só um pouquinho, tá? Eu morro de ciúmes daqui.
Marcela Quintela
15/12/2009
"Dá licença, medo? Minha felicidade quer passar." ABREU, Caio Fernando
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