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O mundo é feito de rótulos. Se tem quatro pernas e um encosto, é cadeira. Se tem braços e é revestida, é poltrona. Se cabem duas ou três pessoas, é sofá. Se é feita pra dormir, é cama.
O mundo é feito de rótulos. Se passa apenas um feixe de luz, é fresta. Se é pequena e bem no alto, é basculante. Se foi feita para vermos o que tem do outro lado, é janela. Se podemos entrar e sair por ela, é porta.
O mundo é feito de rótulos. Se está na roupa e é para guardar coisas, é bolso. Se está no móvel, é gaveta. Se tem porta para abrir, é armário. Se guarda antiguidades, é baú.
O mundo é feito de rótulos. Se tem lágrima e dói no peito, é tristeza. Se tem lágrima e faz sorrir, é felicidade. Se é vazio e silencioso, é solidão. Se é cheio e barulhento, é companhia.
O mundo é feito de rótulos. Se o coração bate depressa e o rosto ruboriza, é amor. Se o coração bate depressa e o rosto incendeia em cólera, é ódio. Se fecha os poros e arrepia os pêlos, é frio. Se abre os poros e libera água, é calor.
O mundo é feito de rótulos. Se contamos a distância em minutos, é perto. Se contamos a distância em horas ou dias, é longe. Se dá o primeiro suspiro, é vida. Se dá o último suspiro, é morte.
Porém, na grandiosidade da minha pequenice, palavras não me esgotam por completo. Sou um pouco de tudo aquilo que não sei descrever e quero um pouco de tudo aquilo que não sei explicar. E tudo o que sinto é complexo demais para se encaixar nas limitações dos sentimentos nomeados.
O mundo é feito de rótulos, mas eu permaneço assim: para sempre inrotulada.
O mundo é feito de rótulos. Se passa apenas um feixe de luz, é fresta. Se é pequena e bem no alto, é basculante. Se foi feita para vermos o que tem do outro lado, é janela. Se podemos entrar e sair por ela, é porta.
O mundo é feito de rótulos. Se está na roupa e é para guardar coisas, é bolso. Se está no móvel, é gaveta. Se tem porta para abrir, é armário. Se guarda antiguidades, é baú.
O mundo é feito de rótulos. Se tem lágrima e dói no peito, é tristeza. Se tem lágrima e faz sorrir, é felicidade. Se é vazio e silencioso, é solidão. Se é cheio e barulhento, é companhia.
O mundo é feito de rótulos. Se o coração bate depressa e o rosto ruboriza, é amor. Se o coração bate depressa e o rosto incendeia em cólera, é ódio. Se fecha os poros e arrepia os pêlos, é frio. Se abre os poros e libera água, é calor.
O mundo é feito de rótulos. Se contamos a distância em minutos, é perto. Se contamos a distância em horas ou dias, é longe. Se dá o primeiro suspiro, é vida. Se dá o último suspiro, é morte.
Porém, na grandiosidade da minha pequenice, palavras não me esgotam por completo. Sou um pouco de tudo aquilo que não sei descrever e quero um pouco de tudo aquilo que não sei explicar. E tudo o que sinto é complexo demais para se encaixar nas limitações dos sentimentos nomeados.
O mundo é feito de rótulos, mas eu permaneço assim: para sempre inrotulada.
Marcela Quintela
31/01/2011
31/01/2011
"Sou o tipo dos sem tipos" LISPECTOR, Clarice
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