Dia de sofrer
Seu corpo era
todo agonia. Um nó sem fim retorcia seu estômago, suas pálpebras pesavam com as
dolorosas lágrimas dolorosas, suas pernas estavam fracas de desânimo, seus ombros
caíam com o peso do mundo. A mão fatigada rabisca sentimento no papel. O mundo
era todo gris e embaçado, a comida era toda insossa, o existir era todo
desconforto. Subitamente, como um raio que parte ao meio uma suntuosa árvore,
viver perdera o sentido.
As memórias
lhe doíam a mente como mil cruéis agulhadas. Não havia conforto nas lembranças.
Passava a palma da mão na testa, com força, como se o gesto físico pudesse
apagar a abstração do pensamento. A lágrima turva molha o papel. Era como se
toda felicidade que sentira, como que em busca do equilíbrio de Universo,
estivesse sendo devolvida em tristeza de igual intensidade. Quase desejava não
ter sido tão feliz.
Os cantos dos
lábios pesavam com a gravidade. O mesmo rosto que mobilizou seus músculos para
tantos sorrisos e gargalhadas agora era a expressão mais fiel da infelicidade
sem cura. O olhar sôfrego encontrou o horizonte. Todos se preocupavam em dizer
como deveria se sentir, mas o que não percebiam é que explicavam ao cérebro o
que precisava entender o coração. Nada é eterno, nem a felicidade de outrora,
nem o sofrimento do dia de hoje. A tristeza em forma de menina sabia que toda a
dor que triturava seu peito um dia não machucaria mais. Sabia, como poucos, que
um dia iria olhar para trás com nada além de carinho. Um dia, mas não hoje.
Hoje era dia de sofrer.
Marcela
Quintela
16/02/2012
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