Já faz tempo


Mudança, muitas vezes, é fazer a mesma coisa, só que diferente. Desde cedo sou frequentadora de avião. A família se espalhou pelo Brasil e era o avião que me conduzia às férias gostosas com os primos queridos. O tempo corria ligeiro: bastava um cochilo no ombro da mamãe depois de encher a barriga com a comida gostosa do vôo – porque, naquela época, as companhias serviam verdadeiros banquetes no menu infantil – e pronto: chegamos. A viagem era curta e a mente era tranquila. Avião, pra mim, era carro que voa pra me deixar mais rápido no lugar onde a – mesma – diversão das férias acontecia. Mas isso já faz tempo, foi na época em que as redações sobre as férias eram sempre iguais.
Quando a gente muda, o mundo muda com a gente. Fiquei uns dois anos em falta com a minha assiduidade aérea; coisas da vida. Eu bem sabia que não tardaria a viajar pelos céus novamente, o que eu esqueci é que “eu”, depois de dois anos, era um “eu” diferente. Voltei aos carros voadores, mas os destinos alongaram-se e, com eles, o número de cochilos, já não mais no ombro da mamãe. O banquete virou ração humana, mas as diversões repetitivas das férias viraram grandes aventuras, e eu diria que a troca foi mais do que justa. As viagens se tornaram mais longas e a mente menos tranquila. As brincadeiras com os primos foram substituídas por descobertas mágicas de lugares pelo mundo, aprendizados insubstituíveis e amores insuperáveis. Mas isso já é coisa recente, na época em que se vê no avião o mesmo filme que está passando nos cinemas.
Nada como o tempo ocioso e a mente aguçada para trazer visão de mundo para o papel. Nesses meus – mais de – 15 anos de passageira, muita coisa mudou: as próprias companhias aéreas, as aeronaves, as comidas, o tempo de vôo, o idioma falado nas chegadas, as experiências vividas fora de casa e eu. Troquei as molecagens em família pelas travessuras do coração e os gibis compartilhados entre primos pelos estudos internacionais. Hoje viajar significa mistério e aventura, cultura e experiência, aprendizado e amadurecimento, encantamento e paixões. Dá até pra esquecer que, não faz nem muitos anos, viagem já foi brincadeira boba de criança. Mas isso já faz tempo, foi na época em que os avisos de “Proibido Fumar” ainda apagavam no avião.



Marcela Quintela
16/02/2012

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