A gente sempre foi um livro
Hoje eu viajei no tempo. Que me perdoem os cientistas e os matemáticos, que me escuse a lógica e a razão, mas eu vou até o fim do mundo a jurar que hoje consegui quebrar as barreiras do tempo-espaço. Desliguei a nossa ligação quase com uma urgência que eu mal entendia, mas que depois havia de reconhecer. Como naquelas cenas de filme de investigação, entrei apressada pelos arquivos empoeirados dos meus textos antigos e das jurássicas mensagens trocadas. Revirei tudo. Joguei papéis imaginários pra cima, derrubei caixas fictícias na ânsia de encontrar informações, achei fotos guardadas no final da prateleira de cima do último corredor da mente profunda. Encontrei os manuscritos borrados das nossas conversas digitais e li cada linha torta deles como se devorasse um livro. Um livro de nós dois.
Como quem lê um livro e entra num vortex de tempo, fui dormir com ele metaforicamente aberto no colo, e acordei tropeçando nas linhas das palavras. Não fui capaz de respirar até devorar a última vírgula. Como quem lê um livro que está tatuado na alma, chorei e ri, ri e chorei; e senti toda dor e toda ternura que cabiam, transbordantes, em cada letra. Eu acho que eu sempre soube que nós éramos um livro. E os manuscritos provam que eu já te chamei pra nos escrever. Pra escrever Leo e Roberta, nossos alteregos tão cheios de ego. E, de certa forma, eu diria que escrevemos. Escrevemos juntos em cada diálogo agridoce de duas mentes poetas. Escrevemos em silêncio, separados, em monólogos e contos. Escrevemos na alma, no peito e na história um do outro.
O nosso livro é como nós somos: intenso como as águas de uma cachoeira livre, ardente como o fogo que toca na pele, bonito como o arco-íris depois da chuva. Como uma louca sábia, eu ri nos nossos diálogos mais cortantes e chorei quando nossas palavras entrelaçaram os dedos pelas rimas trocadas. Eu te vi mocinho e vilão, eu me vi donzela e megera. Atiramos flores poéticas e pedras líricas um no outro, não como Romeu e Julieta, mas como Montéquios e Capuletos de nós mesmos. E foram tantas palavras envenenadas e antídotos de ternura que, se plantássemos os nossos diálogos, nascia um oleandro dos escombros da nossa Hiroshima pessoal. E ele seria impossivelmente verde, como a cor dos seus olhos que encararam como nenhum outro os meus olhos de cigana.
Estou sentada no chão desse porão metafórico. À minha volta, caixas abertas de arquivos antigos, fotos da memória espalhadas sem ordem, as páginas dos manuscritos borradas de lágrimas. Quantos cadeados e trincos tinham na porta deste porão subconsciente? Foi como se as três amêndoas dos seus olhos, mesmo que borradas pelos píxeis da tela, se alinhassem como quem alinha o código giratório de um cofre secreto da memória e da alma. E eu entrei pela porta aberta como quem tem pressa de voltar pra casa depois de uma viagem longa. No brilho eterno da minha mente sem lembranças, as lembranças brilharam mais forte. Agora estou aqui, sentada num sofá azul como quem sentava num banco branco de frente pras grades da rua: vulnerável, medrosa e feliz.
Marcela Quintela
28 de agosto de 2023
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