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Vidas e verdades

A verdade é que nunca se sabe realmente com quantas lágrimas se formam alguns sorrisos, com quantas fragilidades se constroem algumas forças e com quantos pesos se impulsionam algumas levezas. A verdade é que, às vezes, sorrir é um ato de resistência e encontrar algumas alegrias exige um tanto de coragem e outro tanto de amor-próprio. Na era das aparências, na qual os sorrisos capturados pelas câmeras são tão efêmeros quanto os segundos que eles duram e tão potentes como a eternidade da captura, tudo é um sopro e todo sopro pode ser um furacão. A vida é um eterno efeito borboleta e cada bater de asa de uma escolha pode ser a ventania imparável diante da qual nada resiste, nem mesmo os nossos próprios desejos e convicções. Neste tornado chamado vida, só nos resta o equilíbrio quase dicotômico entre a persistência e a paciência. Viver é dançar conforme a música, por causa da música, e apesar da música. Persistir é ter a força do movimento, a esperança do amanhã e a resistência do que...

Sobra Vida

Eu não tenho medo da morte. E, atenção, digo isso com toda a humildade de quem já foi apavorada com o conceito de morrer. Algo na finitude, na falta de controle e na força do ato de ir pra nunca mais voltar é realmente digno de pavor. Mas, por acaso, a vida quis me apresentar a morte e, por escolha, eu decidi que queria chegar a termos com esta vizinha inevitável. E às vezes penso que a morte é mesmo isso: vizinha da vida. Não dá pra olhar pra uma sem saber da outra e eu penso até que elas não se gostam muito, mas convivem em certa harmonia. E é mesmo que assim que deve ser. O medo da morte nada mais é do que o medo da vida. E essa conclusão foi crucial para que eu, além de conhecer, aprendesse a lidar com a tal da morte. O medo de não voltar é a mera consequência do receio de nunca ter chegado. Ou de não ter aproveitado a visita de quem chegou nas nossas vidas antes que se saia pela porta afora sem chance de regresso. É um tanto aquele conceito de que não existe "risco de vida...

O amor nos tempos do corona

     Eu não sei bem o que diria Gabriel García Márquez, mas a verdade é que estamos todos vivendo dias estranhos. Não é a nossa primeira pandemia, mas eu arriscaria dizer que entrou para a lista das mais assustadoras que já tivemos. Ou, ao menos para a minha jovem geração, a com mais impacto nas nossas vidas. Temos uma certa fama de antissociais com os nossos narizes sempre grudados nas telas dos celulares e adoramos aqueles memes que dizem que já estamos velhos demais para eventos sociais, mas a verdade é que nenhuma maratona de “Netflix and Chill” nos preparou para o dia em que seríamos realmente impedidos de sair de casa e socializarmos.      Somos seres sociais, é inegável. Até os mais introspectivos de nós ainda apreciam aquele seleto grupo de amigos nos programas escolhidos a dedo. Mas a verdade é que nem é preciso entrar tanto por aí, porque o buraco é mais embaixo, não é mesmo? Não estamos só falando daquela cervejinha do fim de semana ou daque...

Querida vovó

Hoje eu reli sua carta. E tinha tanto de você nela que me trouxe uma avalanche de vida vivida juntas. E o engraçado é que, em meio ao turbilhão de sentimentos, eu me peguei pensando que sempre quis ter a letra igual a sua. Sua letra era assim como você: carinhosa e aconchegante, tal qual colo de vó. Não sei se por superestima ou desejo, mas eu até achei que minha letra chegou perto da sua com o tempo. E ‘tá bom pra mim. Sua letra é mesmo única, eu jamais quereria plagia-la, fico feliz que - assim como eu - ela é um tanto sua descendente, um tanto sua cria, um tanto parte de você em mim. Obrigada por isso. Faz pouco mais de 15 anos que você escreveu essa carta, mas pareceu, por uns instantes, que o tempo nunca passou. Eu sorri quando você disse que eu e minha prima somos quase irmãs - porque somos mesmo. Eu me encantei quando você - cheia de orgulho - me contou que minha outra prima ia casar e - o motivo do orgulho - ia se arrumar na nossa casa. Eu chorei quando me confessou que se...

Essa semana eu conheci Maria Ribeiro ou Escancarando a porta.

Essa semana eu conheci Maria Ribeiro. E não, não foi pessoalmente. Foi melhor. Essa semana eu li Maria Ribeiro. Em tem um tanto de qualquer coisa quando a gente lê alguém, que é de um jeito que só quem lê sabe. E, talvez você se espante com o que eu vou dizer agora, mas pouca gente sabe ler. Não tô falando daquela burocracia que se aprende na escola, aquilo lá é outra coisa. É uma formalidade que a gente usa pra verificar bula de remédio, manual de instrução (raramente) e rótulo de xampu (ô palavra feia de abrasileirar!). Eu tô falando de ler.  Entende? Ler de verdade não tem nada a ver com os olhos. É coisa de alma, coração e pele. Não se aprende, mas se nasce aprendido.  E é bom. E é ruim. E é tão ruim que dói de bom. Não é escolha, não tem fórmula, é uma marca que o universo coloca na gente que nem ferro em brasa no gado. E tem vezes que arde que nem ferro em brasa no gado. Mas só que tem a marca reconhece um outro igual.   Tá ali: no olhar. Nas palavras. Palavra...